quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Recomeçando a Vida do Zero

Criei esse blog em 2012 quando meu patrimônio era zero, nesse meio de tempo fiz minhas correrias e consegui atingir a independência financeira. Muitos dos que aqui chegam devem ter histórias semelhantes, ou estão justamente no início da caminhada ou mesmo estão devendo até as cuecas e se ligaram que isso não é legal. Não importa, se você está lendo esse texto é sim uma pessoa em busca de prosperidade na vida como um todo, não só na financeira.

No post anterior fiz críticas pesadas ao meu pai, como o nível dos comentaristas é altíssimo, recebi críticas de excelente tom e extremamente construtivas, aproveito para agradecer a todos que de alguma forma tentaram me ajudar com palavras, meu muito obrigado. Meu pai pode ter sido (e ainda é) burrão em relação ao dinheiro porém uma coisa jamais poderei negar: o velho jamais se deu por vencido e nunca desistiu de lutar, mesmo quando a situação era extremamente crítica e desfavorável. Vi meu pai quebrar e recomeçar diversas vezes na vida (e infelizmente talvez verei novamente) e isso me ensinou muitas coisas, entre elas:

  • Dinheiro não aceita desaforo, uma vez que você fez merda, já eras. É preciso um ganho de 100% pra recuperar uma perda de 50%. Isso que dizer que mesmo tendo todo o cuidado ninguém está livre de se foder imensamente e quebrar. Meu principal objetivo do ponto de vista financeiro é justamente jamais quebrar.
  • Em caso de grande bosta você deve ser capaz de ter sangue frio o recomeçar sua vida de alguma maneira. Ficar de mimimi choramingando sobre o leite derramado não vai funcionar. O certo é engolir seco, encarar e partir pra cima. Isso é algo que meu pai sempre fez com maestria.
  • Fodam-se os outros. Se hoje você está bem de vida, tem carro bom, mora bem, come fora com frequência será visto de uma maneira, se amanhã precisar abrir uma pocilga pra vender cachaça e se sustentar será visto de outra. Isso não pode te segurar.
Digamos que após um apocalipse qualquer eu tivesse zero reais no banco. O que faria? Vou tentar esmiuçar meu plano aqui...

Resumo da ópera: casal, na faixa de 35 anos, sem filhos, pagando aluguel, sem carro, sem imóvel próprio porém sem dívidas.

Trunfo: ambos empregados, ambos em nível técnico, boa empregabilidade. Salário familiar: R$ 7.500,00 líquidos.

Super trunfo: MINIMALISTAS. Bia e eu não temos o menor problema em viver sem carro, pagar aluguel, ter móveis das Casas Bahia, andar de transporte público, levar marmita, ser subordinado à outras pessoas, etc. Acredito eu que a vida minimalista seria meu melhor aliado em caso de recomeço.

Despesas: para entender como estão minhas despesas clique aqui (houve algumas mudanças, post em breve). Acredito que me mudando para um lugar mais barato (sim, é possível viver com dignidade em SP gastando uns 1000, 1100 reais por mês), tirando as despesas com veículo e educação, segurando um pouco a onda do mercado, Bia e eu conseguiríamos viver com uns 3500 por mês. Menos 7500 de receita, temos 4000 de saldo.

O que eu faria com esses 4000 mensais? Well, acredito que todo mundo deve ter um teto. Dinheiro na corretora rendendo mais que o aluguel é legal e tals, mas brother, se tudo der errado você ainda sim precisa de um teto, portanto providencie um. Acredito que ao contrário que os gurus de finanças propagam, os pobres fazem certo sim se enfiar num MCMV da MRV em 30 anos. Pra quem não tem educação financeira alguma é melhor pagar juros num apartamento de 45m² que viver em baixo da ponte. Portanto se estivesse recomeçando do zero a primeira coisa que faria seria comprar um imóvel pra viver, esse imóvel poderia ser sem problema algum um MCMV de 200k em algum bairro periférico com boa estrutura e próximo ao nosso trabalho.

O plano é extremamente simples e conservador: 4 anos jogando o surplus de grana na poupança, compraria a vista o tal teto. Simples assim.

Mais um ano e compraria um carrinho popular (se fosse realmente necessário), mobiliaria o apartamento e tiraria férias bacanas porém bem frugal.

Veja que com 40 anos de idade eu teria um apartamento e carro quitado e já sobraria dinheiro. Isso tudo em 5 anos de trabalho normal, CLT, 44h semanais de um casal. Sem me matar de fazer hora extra e sem contar com o 13º e férias (use-os para descontar a inflação numa conta de padeiro). Perceba que para um casal qualquer, de average Joe e Marie  fazerem o mesmo não é nada difícil. Não usei estratégias sinistras nem conhecimento especializado, qualquer um que saiba o mínimo de matemática pode fazer o mesmo.

Mesmo sendo possível ter o mínimo para se viver em pouco tempo e com salários ordinários o que a maioria dos casais faz? Compra carro zero financiado, roupas de marca e arruma 2 filhos. Muito fácil entender o porquê de estarmos num mundo fodido.

Ok, em 5 anos de trabalho, 40 de idade reconquistei a dignidade, tenho onde morar e um carro, mas e agora? Agora aproveitaria a sobra de caixa deixada pelo fim do aluguel e investiria. No que? Não sei... Provavelmente faria como muitos dos mais espertos da blogosfera fazem: procuraria informação e me meteria na renda variável. Muitos me perguntam o porquê de não investir em RV. A resposta é simples: não preciso. Não me levem a mal, não sou rico, não tenho dinheiro saindo pelo ânus, porém com sorte consegui ganhar uma boa quantia de dinheiro em pouco tempo o que me ajudou a formar patrimônio muito rápido, não preciso me enfiar em risco para obter retorno melhor. O que não aconteceria se precisasse investir a partir de salários normais, por isso digo que nesse caso talvez arriscaria um pouco mais em troca de retorno pouco melhor.

Mais importante que onde investiria meu suado dinheirinho mensalmente é estabelecer diretrizes de como tocar a vida, e isso incluiria:

1- Sossegar no apartamento próprio. Não me mudaria, não desejaria um upgrade de imóvel, nada disso. Iria sossegar o cu no tal MRV e por ali ficaria.

2- Nada de troca de carros. Desnecessário explicar. Seria igual aquele tiozão que anda de Santana CL 91 único dono até hoje...

3- Viajaria anualmente porém sempre de maneira frugal (coisa que já faço hoje em dia).

Difícil dizer como seria minha velhice num cenário desses. Não faço ideia de como será no cenário real, que dirá num diferente... Porém esse exercício serve para colocar o cérebro pra trabalhar e identificar saídas para os problemas mais sinistros. A conclusão que chego é que se precisasse recomeçar hoje com certeza não seria lá muito sofrido porque a vida simples e sem muita ambição idiota me traz tranquilidade em todos os aspectos da vida.

Perceba que somos um casal simplão, como muitos por aí. Temos uma renda razoável porém bem abaixo do que muitos possuem e não é nada difícil poupar 50% ou mais do salário. Caralho, ficar rico não é fácil mesmo, porém pra ser pobre também é necessário certo esforço... E você, já parou pra pensar nisso?

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Pai Corey e o Dinheiro

Hoje o post é sobre como meu pai sempre lidou e lida com o dinheiro, é uma coletânea de pérolas que ouvi do velho durante minha infância todas e também de atitudes que o vi ter sobre o dinheiro. Então tome um Dramin, prepare seu estômago e vamos lá!


  • "Banco ou você tem dinheiro ou tem gerente": segundo meu pai para ter sucesso na vida você deve ter ou dinheiro ou ser amigão do gerente do banco. Isso vem de um costume dos anos 80 onde muitas vezes seu gerente cobria um cheque sem fundos, bastava um telefonema. Provavelmente os juros cobrados para tal serviço eram obscuros, mas quem se importa! O importante pro velho era ter o cheque de compra de mais um Fiat 147 coberto...
  • Se você é amigo do gerente, você vai onde ele vai. E isso levou meu pai a abrir uma conta na agência onde o gerente amigão dele fora transferido: 30km de casa, numa agência pequena dentro de um forum. Como nos anos 90 os serviços bancários eram muito mais "agência" que hoje, isso fazia com que o velho tivesse que se deslocar essa distância, pagar estacionamento e usar calças só pra ir ao banco (parece que você não pode entrar de bermudas num forum).
  • "Só existem 2 tipos de carro: Fusca ou zero": Na cabeça do velho a mecânica robusta dos Fuscas justificava ter um carro desse modelo, tirando isso o certo é ter carro zero porque "não dá problema". Como Fuscas não são mais fabricados o velho tratou de ter carro zero nos últimos 15 anos, trocando a cada no máximo 2 anos. Foda-se que não tinha renda, o importante é andar de carro do ano. Ah, os 147 eram pra fazer rolo...
  • "Eu tenho American Express": poucas coisas deixavam o velho mais orgulhoso nos anos 90 que o Amex Green que fazia questão de ostentar por cima dos outros na carteira. Tal cartão foi perdido durante uma das inúmeras crises que o fizeram estoura-lo para pôr comida na mesa de casa (e abastecer o carro do ano). A dívida foi paga... ano passado!
  • Papai Corey até que conseguiu fazer bastante dinheiro durante a vida, tudo graças à seus trades com imóveis e lojas (sim, aprendi com ele, porém lapidei a técnica), porém com as trocas constantes de carro, dívidas no cartão de crédito e gastos irracionais, custou a conquistar algum patrimônio. Agora, com quase 80 anos nas costas se vê novamente em apuros ao tentar pela milésima vez ficar rico.
  • Absolutamente tudo que meu pai faz é feito na base do jeitinho. Se ele tem que ir do ponto A ao ponto B jamais usará a avenida que liga os dois pontos e sim uma quebrada por dentro de 3 favelas, afinal "a avenida tem trânsito e semáforo, pela quebrada eu economizo 3 segundos e é só 90% mais longe". O mesmo serve para todos os negócios que fez na vida: influência política, favores de amigo de amigo de amigo são capim, pagar propina para obter uma licença? Qual o problema?!
  • Old School é o que há. Tecnologia nunca foi presente em nossas vidas, fui ter acesso à um vídeo cassete em 1998 (usado, que o velho pegou num rolo), CD player em 1999, computador somente após casado. Lembro minha felicidade ao descobrir que pegava MTV  no primeiro apartamento que Bia e eu moramos logo que juntamos os trapos. O velho nunca quis comprar uma antena UHF!!! Parece besteira mas isso prejudicou muito minha socialização quando criança e adolescente.
  • O buddy system sempre fodeu imensamente as finanças de casa. Seguro de carro pelo dobro do preço, porque meu pai era amigo do corretor. Levou calote de trocentos mil reais na venda de um imóvel, porque era amigo do corretor que falsificou assinaturas em recibos. Gasolina no posto mais caro da cidade, afinal o dono do posto era amigão... No fim das contas todos esses "amigos" sempre sumiam quando o velho não era mais conveniente à eles.
  • Em 1997 decidi arrumar um bico de mecânico de bicicleta (tá bom, auxiliar do ajudante do mecânico de bicicleta, rs), porém o velho me impediu. Não pela idade e sim porque segundo ele: "você não precisa disso, papai vendeu uma casa e tá com dinheiro". Mesmo com pouca idade já percebia que aquela fase não ia durar muito tempo e sabia que dinheiro uma hora acaba e insisti em ir trabalhar.
  • Esse emprego me fez juntar grana suficiente para comprar uma super-mega-ultra-motherfucker montain bike, ao anunciar que iria adquirir tal bem o velho disse: "guarda o dinheiro na poupança, papai compra pra você", e assim o foi, comprou a bike e deixou de me dar uma excelente lição sobre o dinheiro...
  • Mas o dinheiro da bike, que foi pra poupança, não durou muito tempo por lá... Logo o velho quebrou novamente e precisou usar essa grana para pagar as contas de casa.
  • Durante meu primeiro ano de empreendedor estava completamente fodido com dívidas de 5 dígitos no cheque especial. Era burro financeiramente falando mas concluí que valeria mais a pena pegar um empréstimo de capital de giro à juros muito menores, e quitar o cheque especial. Ao pedir opinião do velho, recebi a seguinte resposta: "Não tem nada de errado, todo comerciante vive no cheque especial, comigo sempre foi assim também, você nunca vai zerar isso...". (a maneira que zerei isso e dei a volta por cima é história pra um post completo).
  • Pouco após zerar minha dívida no cheque especial, comentei o tanto de limite que eu tinha noS bancoS (claro, porque segundo o velho, quanto mais conta uma loja tem, melhor, então as 5 contas que tive (simultaneamente, pagando o pacote de serviços mais top, além de títulos de capitalização e seguros inúteis sugeridos pelos gerentes) foram ideia dele), ele me fala: "com esse limite somado dá pra você comprar outra loja, já pensou em fazer isso?". Preciso comentar?
Isso é somente uma amostra do tipo de ensinamento sobre dinheiro que meu pai me deu. Sempre que recordo isso fico muito orgulhoso de mim mesmo, de como fui capaz em tão pouco tempo e com esse tipo de "ajuda" conseguir acumular patrimônio e atingir a independência financeira. No frigir dos ovos meu pai me deu algo muito importante e que valorizo muito: educação em escola particular. Tudo bem que até hoje ele deve alguma grana lá, mas ele e minha mãe (mais influência dela), sempre fizeram questão de me manter em escola particular e isso fez muita diferença na minha vida, seja por conviver com pessoas de nível econômico maior (sempre maior que o meu, eu era o pobre no meio dos ricos) ou por ter uma educação de maior qualidade que me ajudou na faculdade e mesmo no desenvolvimento pessoal. Por isso sou muito grato.

Meu pai sempre foi meu amigão, porém após sair de casa comecei a perceber que ele não era o herói que achava... Muito pelo contrário, ele me fodeu muito, muito mesmo. Não vou mentir, guardo imenso rancor pelo velho, não só pela influência negativa que teve na minha vida financeira mas também na vida pessoal e que não vem ao caso agora. Por outro lado, uso-o como anti-modelo, tento sempre seguir o caminho oposto que ele. Já disse aqui no blog algumas vezes que meu maior desejo financeiramente falando sempre foi ter estabilidade e jamais repetir os ciclos de prosperidade e miséria que meu pai (e por consequência eu) passou. Minha história pode servir de alerta, vejo muita gente que coloca pai e mãe num pedestal, como exemplos de tudo de bom, quando na verdade são somente seres humanos passíveis de erros, é preciso tomar muito cuidado com isso.
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